Definição Do Amor
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Definição Do Amor lyrics

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Mandai-me, senhores, hoje Que em breves rasgos descreva Do amor a ilustre prosápia E de cupido as proezas Dizem que da clara escuma Dizem que do mar nascera Que pegam debaixo d'água As armas, que amor carrega Outros, que fora ferreiro Seu pai, onde Vênus bela Serviu de bigorna, em que Malhava com grã destreza Que a dois assopros lhe fez O fole inchar de maneira Que nele o fogo acendia Nela aguava a ferramenta Nada disto é, nem se ignora Que o amor é fogo, e bem era Tivesse por berço as chamas Se é raio nas aparências Este se chama monarca Ou semideus se nomeia Cujo céu são esperanças Cujo inferno são ausências Um rei, que mares domina Um rei, o mundo sopeia Sem mais tesouro que um arco Sem mais arma que uma seta O arco talvez de pipa A seta talvez de esteira Despido como um maroto Cego como uma toupeira Um maltrapilho, um ninguém Que anda hoje nestas eras Com o cu à mostra, jogando Com todos a cabra-cega Tapando os olhos da cara Por deixar o outro alerta Por detrás à italiana Por diante à portuguesa Diz que é cego, porque canta Ou porque vende gazetas Das vitórias, que alcançou Na conquista das finezas Que vende também folhinhas Cremos por coisa mui certa Pois nos dá os dias santos Sem dar ao cuidado tréguas E porque despido o pintam É tudo mentira certa Mas eu tomara ter junto O que amor a mim me leva Que tem asas com que voa E num pensamento chega Assistir hoje em cascais Logo em coima, e salvaterra Isto faz um arrieiro Com duas porradas tesas E é bem, que no amor se gabe O que o vinho só fizera E isto é amor? É um corno Isto é cupido? Má peça Aconselho que o não comprem Ainda que lhe achem venda Isto, que o amor se chama Este, que vidas enterra Este, que alvedrios prostra Este, que em palácios entra Este, que o juízo tira Este, que roubou a Helena Este, que queimou a troia E a grã-bretanha perdera Este, que a Sansão fez fraco Este, que o ouro despreza Faz liberal o avarento É assunto dos poetas Faz o sisudo andar louco Faz pazes, ateia a guerra O frade andar desterrado Endoidece a triste freira Largar a almofada a moça Ir mil vezes à janela Abrir portas de cem chaves E mais que gata janeira Subir muros e telhados Trepar cheminés e gretas Chorar lágrimas de punhos Gastar em escritos resmas Gastar cordas em descantes Perder a vida em pendências Este, que não faz parar Oficial algum na tenda O moço com sua moça O negro com sua negra Este, de quem finalmente Dizem que é glória, e que é pena É glória, que martiriza Uma pena, que receia É um fel com mil doçuras Favo com mil asperezas Um antídoto, que mata Doce veneno, que enleia Uma discrição, sem siso Uma loucura discreta Uma prisão toda livre Uma liberdade presa Desvelo com mil descansos Descanso com mil desvelos Uma esperança, sem posse Uma posse, que não chega Desejo, que não se acaba Ânsia, que sempre começa Uma hidropisia d'alma Dá razão uma cegueira Uma febre da vontade Uma gostosa doença Uma ferida sem cura Uma chaga, que deleita Um frenesi dos sentidos Desacordo das potências Um fogo incendido em mina Faísca emboscada em pedra Um mal, que não tem remédio Um bem, que se não enxerga Um gosto, que se não conta Um perigo, que não deixa Um estrago, que se busca Ruína, que lisonjeia Uma dor, que se não cala Pena, que sempre atormenta Manjar, que não enfastia Um brinco, que sempre enleva Um arrojo, que enfeitiça Um engano, que contenta Um raio, que rompe a nuvem Que reconcentra a esfera Víbora, que a vida tira Àquelas entranhas mesmas Que segurou o veneno E que o mesmo ser lhe dera Um áspide entre boninas Entre bosques uma fera Entre chamas salamandra Pois das chamas se alimenta Um basalisco, que mata Lince, que tudo penetra Feiticeiro, que adivinha Marau, que tudo suspeita Enfim o amor é um momo Uma invenção, uma teima Um melindre, uma carranca Uma raiva, uma fineza Uma meiguice, um afago Um arrufo, e uma guerra Hoje volta, amanhã torna Hoje solda, amanhã quebra Uma vara de esquivanças De ciúmes vara e meia Um sim, que quer dizer não Não, que por sim se interpreta Um queixar de mentirinha Um folgar muito deveras Um embasbacar na vista Um aí, quando a mão se aperta Um falar por entre dentes Dormir a olhos alerta Que estes dizem mais dormindo Do que a língua diz discreta Uns temores de mal pago Uns receios de uma ofensa Um dizer choro contigo Choramingar nas ausências Mandar brinco de sangrias Passar cabelos por prenda Dos palmitos pelos ramos E dar folar pela festa Anal pelo São João Alcachofras na fogueira Ele pedir-lhe ciúmes Ela sapatos e meias Leques, fitas e manguitos Rendas da moda francesa Sapatos de marroquim Guarda-pé de primavera Livre Deus, a quem encontra Ou lhe suceder ter freira Pede-vos por um recado Sermão, cera e caramelas Arre lá com tal amor Isto é amor? São quimera Que faz de um homem prudente Converter-se logo em besta Uma bofia, uma mentira Chamar-lhe-ei, mais depressa Fogo selvagem nas bolsas E uma sarna das moedas Uma traça do descanso Do coração bertoeja Sarampo da liberdade Carruncho, rabuge e lepra É este, o que chupa, e tira Vida, saúde e fazenda E se hemos falar verdade É hoje o amor desta era Tudo uma bebedice Ou tudo uma borracheira Que se acaba co'o dormir E co'o dormir começa O amor é finalmente Um embaraço de pernas Uma união de barrigas Um breve tremor de artérias Uma confusão de bocas Uma batalha de veias Um reboliço de ancas Quem diz outra coisa, é besta

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