Gaveta Chamada Amanhã
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Gaveta Chamada Amanhã lyrics

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Amanhã Amanhã pra mim são quinze Mas quem toca o amanhã Sem atravessar a neblina? A mão só conhece O que já doeu na pele Primeiro foi só o calendário na parede Uma folha torta, um número azul Depois foi a xícara fria na pia O Sol entrando sem fazer nenhum sinal Depois foi a camisa na cadeira A poeira dormindo sobre o chão A casa inteira respirando baixo Como quem guarda uma respiração Eu disse: Amanhã eu vejo Amanhã eu ligo Amanhã eu peço perdão E o relógio, feito um bicho pequeno Roía a beira da minha mão Mas e se o amanhã não vier? Mas e se a porta não abrir? Mas e se a luz que eu deixei pra depois Não souber mais me seguir? Hoje, hoje, hoje Cadê o hoje? Escorre pelos meus dedos Feito água sem nome Hoje, hoje, hoje Me chama de dentro do ar Por que guardamos a vida Numa gaveta chamada amanhã? Depois vieram pratos, contas, cartas Roupa suja, silêncio, jornal Depois vieram frases pela metade O amor sentado no degrau Depois veio a palavra engolida O abraço dobrado no armário A conversa que perdeu o corpo Presa no vidro do calendário Deixo pra depois a casa Deixo pra depois a dor Deixo pra depois o riso Deixo pra depois o amor E de tanto empurrar o mundo O mundo ficou longe de mim E de tanto adiar a vida A vida perguntou: Até quando assim? Mas e se o amanhã não vier? Mas e se o trem não voltar? Mas e se a boca que ia dizer fica Não tiver voz pra falar? Hoje, hoje, hoje Cadê o hoje? Escorre pelos meus dedos Feito água sem nome Hoje, hoje, hoje Me chama de dentro do ar Por que guardamos a vida Numa gaveta chamada amanhã? Uma vela, duas sombras Três retratos no corredor Quatro passos sem destino Cinco nomes para a dor Seis estrelas no teto do quarto Sete luas no mesmo lençol Oito medos dançando no copo Nove voltas em torno do Sol Dez promessas na ponta da língua Onze portas sem maçaneta Doze sonhos dentro do peito Treze chaves numa gaveta Quatorze vezes eu disse amanhã Quinze vezes calei minha sede E o hoje, com os pés descalços Passou por dentro da parede Se não tiver amanhã Quem seremos nós? A poeira? A mesa? A última luz do poste? Se não tiver amanhã Para onde irá O beijo que ficou suspenso O perdão que não saiu da garganta O pão que ninguém partiu? Hoje, hoje, hoje Cadê o hoje? Escorre pelos meus dedos Feito água sem nome Hoje, hoje, hoje Me chama de dentro do ar Por que guardamos a vida Numa gaveta chamada amanhã? Amanhã são dezesseis Mas só pra quem acordar Pra quem fechar os olhos antes Nenhum número vai virar Amanhã é uma promessa Com assinatura de fumaça A gente lê, acredita, guarda E ela se desfaz na praça Então lava o copo, abre a janela Tira a poeira do violão Diz agora o que pesa tanto Põe agora a mão na mão Hoje, hoje, hoje Cadê o hoje? Escorre pelos meus dedos Feito água sem nome Hoje, hoje, hoje Me chama de dentro do ar Não quero guardar a vida Numa gaveta chamada amanhã Hoje, hoje, hoje Fica um pouco mais O amanhã é só neblina O hoje sabe onde a gente faz No fim Quem ficou e quem partiu Talvez descubra devagar O amanhã não prometeu nada Fomos nós que quisemos acreditar Hoje Hoje Hoje

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